Chapter 9
Um capítulo da história
do SignWriting
A History of SignWriting
written in Brazilian Portuguese
Ronice Müller de Quadros
SignWriting é um sistema
de escrita para escrever línguas
de sinais. Me lembro quando
os lingüistas, professores
e os próprios surdos
diziam que a língua
de sinais era ágrafa.
Hoje, esse capítulo
da caminhada da comunidade
surda já faz parte
da história. Assim
como a duas décadas
começamos a discutir
sobre as línguas de
sinais, agora começamos
a descobrir a riqueza dessas
línguas através
de uma escrita própria.
SignWriting expressa os movimentos,
as formas das mãos,
as marcas não-manuais
e os pontos de articulação.
Até então, a
única forma de registro
das línguas de sinais
era o registro em vídeo
cassetes, registro que continua
sendo uma forma valiosa para
a comunidade surda. Acrescenta-se
a essa forma, a escrita das
línguas de sinais.
Um sistema rico e fascinante
que mostra a forma das línguas
de sinais. Eu gostaria de
relatar um capítulo
da história do SignWriting
no mundo e no Brasil, pois
enquanto autores desse capítulo,
não podemos omitir
esse processo da comunidade
surda e da educação
dos surdos.
SignWriting foi criado pela
Valerie Sutton em 1974. Valerie
criou um sistema para escrever
danças e despertou
a curiosidade dos pesquisadores
da língua de sinais
dinamarquesa que estavam procurando
uma forma de escrever os sinais.
Portanto, na Dinamarca foi
registrada a primeira página
de uma longa história:
a criação de
um sistema de escrita de línguas
de sinais. Conforme os registros
feitos pela Valerie Sutton
na homepage do SignWriting
http://www.signwriting.org
, em 1974, a Universidade
de Copenhagen solicitou à
Sutton que registrasse os
sinais gravados em vídeo
cassete. As primeiras formas
foram inspiradas no sistema
escrito de danças.
A década de 70 caracterizou
um período de transição
de Dancewriting para SignWriting,
isto é, da escrita
de danças para a escrita
de sinais das línguas
de sinais.
Em 1977, Dr. Judy Shepard-Kegl
organizou o primeiro workshop
sobre SignWriting para a Sociedade
de Lingüística
de New England nos Estados
Unidos, no MIT. Nesse mesmo
ano, o primeiro grupo de surdos
adultos a aprender o sistema
foi um grupo do Teatro Nacional
de Surdos em Connecticut.
A primeira estória
escrita em SignWriting foi
publicada: Goldilocks and
the three bears. Em 1978,
as primeiras lições
em vídeo foram editadas.
Em 1979, Valerie Sutton trabalhou
com uma equipe do Instituto
Técnico Nacional para
Surdos em Rochester prestando
assistência na elaboração
de uma série de livretos
chamados The Techinical Signs
Manual que usaram ilustrações
em SignWriting.
Na década de 1980,
outra página da história
começa a ser escrita.
Valerie Sutton apresentou
um trabalho no Simpósio
Nacional em Pesquisa e Ensino
da Língua de Sinais
entitulado Uma forma de analisar
a Língua de Sinais
Americana e qualquer outra
língua de sinais sem
passar pela tradução
da língua falada. Depois
disso, SignWriting começou
a se desenvolver mais e mais.
De um sistema escrito à
mão livre passou-se
a um sistema possível
de ser escrito no computador.
O primeiro jornal foi escrito
à mão nos anos
80, assim como os monges escreviam
antes da existência
da imprensa. Atualmente, dispomos
de uma homepage onde vários
artigos são publicados
quase que semanalmente.
Através do computador,
o SignWriting começou
a se tornar muito mais popular
nos Estados Unidos. Hoje em
dia, o sistema de escrita
de sinais não tem mais
a mesma forma que o sistema
criado em 1974. O sistema
evoluiu muito ao longo dos
anos. O uso do sistema determinou
as mudanças envolvendo
várias pessoas nesse
processo.
A evolução
do SignWriting apresenta características
da evolução
da escrita de certa maneira.
Atualmente, estamos discutindo
a produção escrita
padronizada. "Padronizada"
no sentido de escrever o mesmo
sinal usando os mesmos "grafemas".
Essa questão foi o
tópico da última
discussão na lista
do SignWriting (maio de 1998).
A produção escrita
dos sinais difere de pessoa
para pessoa. Cada um escreve
como acha que deve ser escrito.
Eu percebi que isso estava
acontecendo no primeiro curso
de SignWriting ministrado
na PUC do RS em Porto Alegre
em 1997. Cada aluno produzia
o mesmo sinal de forma diferente.
Alguns eram mais simples ou
mais detalhistas do que outros.
Isso faz parte de um processo
natural. O inglês quando
começou a ser escrito
passou por esse mesmo processo.
Cada pessoa escrevia o som
da forma que achava mais adequado.
A escrita passou a ser padronizada
ao longo do tempo com a invenção
da imprensa. A imprensa foi
o meio em que a escrita foi
difundida rapidamente. A escrita
tornou-se pública e
naturalmente foi sendo padronizada.
Valerie Sutton, em uma das
suas mensagens, contou uma
estória interessante
a respeito da padronização
da escrita. Ela adiquiriu
o dinamarquês como segunda
língua na região
de Copenhagen. Certa ocasião,
ela foi visitar uma região
da Dinamarca que fala um outro
dialeto. Estando lá,
Valerie teve dificuldade de
entender o dialeto e passou
a usar a escrita para se comunicar
com uma senhora. Apesar de
falerem diferentes dialetos
do dinamarquês, a escrita
era a mesma. Nesse sentido,
o "padronizado"
torna-se uma vantagem e parece
estar associado com a escrita.
A ASL tem uma longa caminhada
em SignWriting e já
dispõe de um dicionário
bastante rico produzido pelo
DAC em SignWriting. Mesmo
assim, o sistema ainda é
bastante flexível.
No entanto, muitas pessoas
estão usando SignWriting
nos EUA e a tendência
natural é de haver
uma padronização.
Algumas pessoas começaram
a trocar arquivos em SignWriting
e num futuro próximo
teremos uma sala de discussão
na Internet disponível
para conversarmos usando o
SignWriting. claro que cada
língua de sinais vai
naturalmente desenvolver uma
forma comum de escrever os
sinais. Nesta sala, vamos
ter a oportunidade de ler
ASL, LIBRAS, bem como outras
línguas de sinais.
Obviamente, as pessoas precisam
saber pelo menos uma língua
de sinais e saber escrever
tal língua usando o
SignWriting. Na verdade, é
o que acontece nas salas que
existem agora, se eu sei escrever
italiano eu entro numa sala
e converso com pessoas que
sabem italiano, mesmo estando
no Brasil.
Atualmente, o SignWriting
está se desenvolvendo
muito rápido. Como
diz Valerie, "é
a década da explosão
do SignWriting". Todos
começam a se interessar,
em especial a comunidade surda
americana e a escolas de surdos
que vem desenvolvendo uma
educação bilíngüe.
O DAC - Deaf Action Committee
For SignWriting - está
oferecendo suporte para o
desenvolvimento de Projetos
de Alfabetização
em SignWriting. Tais projetos
envolvem escolas americanas,
canadenses e, generosamente,
Valerie Sutton aceitou dar
suporte para o Brasil. Além
disso, o SignWriting dispõe
de uma lista exclusiva de
discussão aberta a
quaisquer pessoas interessadas
em compartilhar experiências
e discutir sobre o assunto,
para entrar na lista basta
solicitar a conexão
através da mensagem:
Sub SW-L seu nome completo,
por exemplo,
Sub SW-L Ronice Müller
de Quadros.
Essa mensagem você envia
para o endereço:
LISTSERV@ADMIN.HUMBERC.ON.CA
Claro que você precisa
dispor de um endereço
eletrônico para receber
as mensagens.
Vamos, então ao capítulo
do SignWriting no Brasil.
No ano de 1996, a PUC do RS
em Porto Alegre através
do Dr. Antonio Carlos da Rocha
Costa descobriu o SignWriting
enquanto sistema escrito de
sinais usado através
do computador. A partir disso,
SignWriting começou
a tomar forma no Brasil. O
Dr. Rocha formou um grupo
de trabalho envolvendo especialmente
a Prof. Marianne Stumpf e
a Prof. Marcia Borba. Marianne
é surda, professora
na área de computação
na Escola Especial Concórdia.
Atualmente, ela está
trabalhando com o SignWriting
em algumas turmas. A Escola
Especial Concórdia
tem apoiado o desenvolvimento
do SignWriting, pois tem considerado
ser uma forma de escrever
a língua de sinais.
Marcia tem se envolvido com
a parte de pesquisa relacionada
à computação.
Tive oportunidade de contatar
Leonardo Mahler, um de seus
alunos, que está desenvolvendo
um softer juntamente com um
grupo para acessar o dicionário
do SignWriting. Temos certeza
que do Departamento de Informática
da PUC do RS teremos bons
frutos do desenvolvimento
desse sistema escrito no Brasil.
O Dr. Rocha continua apoiando
esse processo com muita dedicação.
O projeto de alfabetização
está se constituindo
a partir de contato estabelecido
com Valerie Sutton durante
minha estada nos Estados Unidos.
Enquanto pesquisava a estrutura
da língua brasileira
de sinais - LIBRAS - e estudava
as teorias que serviriam de
base para minha tese, mantive
contato intenso com Valerie
Sutton discutindo sobre as
formas de expressar a escrita
e possibilidades de ter seu
apoio no desenvolvimento do
projeto para o Brasil. Valerie
sempre foi bastante prestativa
e eficiente. Ela gentilmente
aceitou dar o suporte que
necessitamos. Atualmente,
estamos trabalhando na produção
de estórias e na composição
do dicionário bilíngüe,
ou seja, sinal na LIBRAS e
palavra em português.
Esse é um trabalho
interminável, pois
quantidade é muito
importante, além da
qualidade, é claro.
Tenho certeza que aos poucos
teremos mais e mais escritores
para colaborar neste processo
e esperamos contar com suporte
financeiro no Brasil para
obtermos recursos para produção
da estórias. Essa etapa
é muito importante,
pois a escrita se torna viva
quando ela realmente existe.
Quando os autores dessa escrita
começam a produzir
textos e a ler outros textos,
essa escrita se torna algo
significativo e passa a desempenhar
um papel no processo de aquisição
da escrita.
No Brasil, temos boas perspectivas
de dar continuidade a esse
processo, uma vez que algumas
escolas começam a se
interessar e buscar conhecer
tal sistema. A Escola Especial
Concórdia de Porto
Alegre e a Escola Hellen Keller
de Caxias do Sul/RS já
começaram a aprender
como escrever a LIBRAS. Esse
é um passo que tende
a ser trilhado por muitas
outras escolas. Instituto
Nacional de Educação
de Surdos no Rio de Janeiro
e algumas escolas em São
Paulo começam a se
interessar por SignWriting.
A Federação
Nacional de Educação
e Integração
de Surdos demosntra curiosidade.
Esse é o processo!!
Tenho mantido contato com
a Dr. Eulália Fernandez
da UERJ e com a Dr. Regina
Maria de Souza da UNICAMP
sobre educação
de surdos, comunidade surda
e alfabetização.
Nestes contatos, temos conversado
sobre a possibilidade de implementação
do projeto de alfabetização
com o SignWriting e temos
algumas luzes dispontando
no caminho.
O Projeto de Alfabetização
é uma porta para a
aquisição da
escrita da LIBRAS que servirá
de suporte para um processo
de aquisição
do português escrito.